quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Assim caminha a Humanidade














É legal quando nos detemos a falar de defeitos, de erros, de situações onde as pessoas falham, aí dizemos, é humano. É humano perder o foco da atenção e entregar a energia para as lajotas da sala, as vezes. É humano sentir um leve desiquilíbrio, e até cair, desmontando o corpo de forma cômica. É humano não ter força para aguentar tudo, e se sentir incapaz. É humano ter limites.

Ser animal também é ser humano. Afinal, somos primatas, somos mamíferos, somos artistas. É humano perder o controle sobre si e avançar contra o próximo, destroçando sua carne. É humano não ter limites. É humano ser desumano, as vezes.

Em certas situações, quando estamos no limite da existência, somos humanos, somos vítimas, somos cruéis. Quando falta o ar, quando falta o sangue, ou o fôlego de algo mais íntimo de realização, quando a morte se apresenta... Sentimos o que é ser humano. É desumano.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Sem pé nem cabeça














Dessa vez, a orgia foi um pouco menos romântica. Agora, era chegada a hora de experimentar uma modalidade um pouco diferente: o sado-masoquismo.
Primeiro, começamos com casais, que faziam um sexo furioso, com clima de campo de batalha. Depois, a coisa foi esquentando, e ficou três contra um, no meio da roda. Confesso que eu não estava muito acostumado com essas coisas meio sádicas, mas ainda assim tenho que admitir que foi muito gostoso. O grupo foi se empolgando, era muita gente excitada ao mesmo tempo, e as respirações ficaram cada vez mais ofegantes. Corpos suados no chão rolavam, pulavam, gemiam, gritavam, se enfrentavam e derrubavam uns aos outros, com brutal animalidade, mas ao mesmo tempo, com o carinho e o cuidado de quem se ama.
Um arrepio subiu pela espinha, deixando meus pêlos ouriçados. Era o gozo, fruto da intimidade que construímos a cada dia, sussurrando ao ouvido que a qualquer momento poderia pegar a todos de surpresa. Nesse instante, nos tornamos platéia. No meio da sala, restava um casal, brutal, animal, vendaval, homossexual. Cada um de nós se voltou para sua própria intimidade, em busca do prazer, sem se desligar do que estava acontecendo, é claro. Os olhos de cada um estavam vivos, sedentos por cada movimento que acontecia ali. Sedentos por química.
Participar daquilo era como ser coberto de mordidas, do pé até a cabeça. Uma confusa excitação. Uma viagem, da Lua até o Sol. Uma tentativa de equilíbrio entre a Deusa do Amor e o Deus da Guerra, com passos firmes para não cair, e sem perder o foco daquilo que move toda essa paixão: o jogo.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Tô ficando cabadin!














Uma mulher teve seu corpo abduzido esta noite. Ela estava passeando tranquilamente, na esquina da Dom Romualdo de Seixas com a Jerônimo Pimentel, quando um grupo de microbiologistas sanguinários avançaram em cima de seu corpo, de forma feroz, como um rebanho possuído pelas regras do jogo. Foram se deslocando numa velocidade impressionante pela cidade, até chegar no cemitério Max Domini. Mas a última homenagem não foi a melhor. O corpo da pobre mulher foi arremessado como um pedaço de carne seca no cemitério. Quando finalmente voltou a si, viu que praticamente não tinha se machucado, graças às suas incríveis habilidades concebidas nas práticas de Jiu-Jitsu. Procurou manter a calma. Se levantou. E viu que uma multidão se aproximava.

-Quem são vocês?
-Nós somos os marinheiros da Praça Brasil!
-O que vocês vieram fazer aqui?
-Viemos combater!
-Combatam, então, que eu quero ver!

Muita coragem para uma única mulher, não é mesmo? Pois continue lendo, porque o clímax dessa história ainda está por vir. Depois da provocação ousada de nossa heroína, os marinheiros puseram-se a realizar um ritual de dança marítima. Era algo como um axé, ou um funk, um tanto quanto pornográfico. Todos dançavam, se insinuando para ela, com passos cuidadosos de um lado para o outro, enquanto cantavam:

-Cabadin, cabadin, cabadin, cabadin, cabadin...

Mas ela foi destemida. Com muita coragem, não baixou a cabeça e resolveu enfrentar cada um ali. Sentia que, no fundo, não estava sozinha. Podia até ouvir vozes de estímulo e de fervor de seus amigos que já haviam passado dessa para uma melhor. Então, avançou no terreno inimigo, e os exterminou, um por um, até vencer o grande jogo, e se mostrar uma mulher de fibra. Uma verdadeira lenda urbana. Ficou tão excitada com isso, que pulou em cima do Rafael e rasgou toda a camisa dele

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Para onde levam tuas asas?














Era tudo um grande Círio de Nazaré, sabe? Uma espécie de procissão, um sacerdócio pelo prazer e pela arte. Os corpos suados, todos se apalpando, mas não estavam nem aí. Até porque estavam ali. Todos totalmente envolvidos pelo jogo. Os músculos trabalhavam, e cada ser humano conhecia o cansaço, conhecia a exaustão, mas também conhecia o êxtase. Eu sei, porque eu estava ali. Era um universo de pessoas, se amando, e trocando muito cebo e ceroto entre si. Trocando energia e paixão. E eu soube o quanto tudo aquilo era importante, quando fui erguido, e acreditem, amigos, durante alguns segundos, eu voei!

-De que servem tuas mãos?

-Servem para que eu arranque todas as tuas vísceras, as jogue de novo dentro de ti e te espere secar. E para onde te levam teus pés?

-Me levam ao céu, me levam ao infinito, me levam a níveis psicofísicos tão excitantes, que quando tento lembrar, lembro de mim e das estrelas.

Depois disso, eram os pés de volta no chão, e o corpo todo. E ela só sangrou depois da hora.

Enquanto isso, na floresta encantada...














-Acho que você tá dando bandeira pra mim.

-Você acha, é? (risos)

-Eu acho sim.

-Huuum, e porque você acha isso, posso saber? Eu nunca nem te dei bola!

-Mas tá dando a bandeira.

-Ah, como você é bobo...

-Me dê a sua mão.

-Por que eu daria a mão pra você?

-Não faça perguntas complicadas, apenas deixe seus dedos repousarem sobre os meus, para sentir o quão forte é esse sentimento que invade o meu coração nessa hora...

-Está bem...

-COLADA!

Qual é o teu papel?

Nessa folha em branco, eu vou viver uma experiência de paixão e medo. Vou materializar traumas e vícios. Vou entrar em uma arena de confissões e amores, de caminhos e descaminhos. De entrega grupal.
Este papel vai transportar para todos eles o que eu tenho de mais intenso, íntimo e frágil. Vou me entregar para essas pessoas, tirar a roupa, e mostrar cada cicatriz, cada ferida aberta, e entrar num orgasmo coletivo que vai deixar a orgia cada vez mais cruel.

Quando criança, corri atrás do ônibus e me agarrei em um frango. Tenho medo de água. Roubei bolachas da secretaria. Tenho medo de perder quem eu amo. Estou cheia de buraquinhos. Meu pai me espancou. Eu tenho um sonho. Não consigo chegar a lugar nenhum. Sou um barquinho solitário, no oceano. Sou um falo. Um leque. Um sanduiche. E eu estou aqui me entregando, lutando por um grande sonho, um tesão incontrolável, uma paixão arrebatadora: O jogo.

Mamãe, vai dormir, porque você tem que acordar cedo amanhã.

Todos depiladinhos


Era a primeira aula de Interpretação da turma. A professora era a famigerada Wlad Lima. Todos estavam a tremer de medo.

-Boa noite, o meu nome é Wlad Lima. E vou apagar a luz desta sala, contar dez segundos, e acender. Quando acender, quero que todos estejam nus. Quem mantiver uma só peça de roupa pode sair pela porta. Estará automaticamente reprovado na disciplina.

Antes que a temida professora chegasse ao interruptor para desligá-lo, já se podia ouvir de fora da sala as gargalhadas de felicidade dos alunos jogando suas cuecas e calcinhas pelos ares

Vamos começar introzudindo

Eu sou muito sentimental. Mas ao mesmo tempo, um tanto insensível. Foi o que pensei, enquanto assistia a meus colegas tendo ondas de lágrimas na arena. Era terça feira. Primeira aula da tão famosa Wlad Lima, e da Karine. A minha expectativa era imensa, não só pelos belos trabalhos que já vi serem dirigidos pelas duas, mas porque a Luana já havia dito que a Karine gosta de cobrar o máximo das pessoas. Senti que na minha carreira de ator e diretor, isso vai ajudar muito. Demais, mesmo. Tô doido pra ser cobrado, e esticar cada vez mais os meus limites. E as minhas expectativas não foram frustradas. Depois da aula dessa terça, saí da escola de teatro cheio, farto, gozado, excitadíssimo, com vontade de espalhar para todos o quão feliz eu estava me sentindo.

A cada dia que passa sinto crescer essa paixão pelo teatro. Demoraram alguns anos, mas depois de muito namorar, finalmente consegui me apaixonar pela coisa. E a Escola de Teatro da UFPa foi fundamental pra isso. Hoje, enquanto ouvia Os Mutantes no ônibus, pensava no quão feliz foi a minha solitária decisão de me matricular nessa escola, um lugar e um ambiente até então completamente desconhecidos pra mim. Talvez tenha sido uma das melhores coisas que eu já tenha feito.

Entro por aquela porta, e vejo se abrirem infinitos caminhos de prazer, paixão e arte. Um lugar onde as pessoas estudam por paixão, o que torna tudo muito mais estimulante. ETDUFPA. Lugar sagrado, terapêutico, apaixonante. É essa a atmosfera que quero respirar para o resto de minha vida.