
O corpo estava disposto diante de nós. Frio, gélido, vibrante. Nunca tínhamos visto um cadáver tão estranho. As unhas eram pontudas e afiadas, as orelhas peludas, e os olhos puxadinhos. Sua boca estava aberta, e dentro dela havia uma estranha pérola. Podíamos ter começado com um sapo, mas não! Nós, jovens microbiologistas inexperientes tivemos que encarar esse desafio de forma fria e sanguinolenta. Comecei fazendo o primeiro corte. Havia bastante sangue ali, bastante vida, mas nenhuma vontade de escorrer. Fomos retirando órgão por órgão. Mas havia uma dificuldade muito grande em identificá-los.
À medida que o estudo foi crescendo, fomos criando um certo afeto por aquela pessoa. Ficávamos tentando imaginar quem, de fato, teria sido ela. Decupando parte por parte de sua estrutura física, tentando desvendá-la, até que vimos que não conseguiríamos. O trabalho era difícil demais para nós. Não haviam os recursos necessários. Então, resolvemos colocar asas na imaginação, e tornar tudo aquilo uma obra de arte.
Foi doloroso, mas fomos até o fim. O cadáver estava aberto, como uma bolsa vazia, uma folha em branco. Começamos o trabalho cortando-nos uns aos outros e tirando partes de nossos próprios organismos. Um coração, um cérebro, um olho e duas genitálias, colocamos tudo lá dentro, e costuramos a bolsa. Nossas dores eram muito fortes, sentíamos que íamos morrer lentamente. Nos abraçamos enquanto deixávamos o sangue jorrar.
O sangue foi descendo, e cada vez mais ficávamos fracos por causa da dor. Todos já havíamos entregado os pontos, quando percebemos que as feridas começaram a se fechar. Estávamos sendo curados! Era inacreditável. Quando finalmente nos levantamos, ficamos estupefatos: o cadáver havia sumido.
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